Parte VI - Domingo na estrada.

Quando estou a rolar em direcção a Casa, parece que o carro rola melhor. Não sei se é a Saudade que me empurra ou se é o magnetismo de Casa que me puxa... talvez as duas. Sei que para voltar primeiro tenho que ir, mas quando já estou no regresso a percepção do passar do tempo parece que fica alterada... Por vezes sinto uma inexplicável sensação de felicidade a inundar-me o corpo, despertando-me os sentidos de tal forma, que sinto uma descarga de energia capaz de me fazer conduzir directamente e sem pausas até Casa, caso fosse necessário!...

Sei que ainda tenho uns dias de viagem até alcançar terras Lusitanas.
Faço umas contas rápidas e planeio a viagem de regresso. Tento calcular onde vou passar o domingo, dia de paragem obrigatória. Faço alguns telefonemas com o objectivo de localizar alguns colegas de profissão começando pelos colegas da mesma empresa. Pelas minhas contas devo ficar lá para o meio de França, algures na zona do Maciço Central em local ainda a definir... O dia está solarengo dando mais brilho aos vastos campos de cultivo por onde vou passando, realçando os contrastes da agora colorida paisagem.
Depois de vários telefonemas tomo a decisão sobre o local onde vou parar e onde já estão alguns colegas. Procuro um local e com alguma sorte estaciono o meu carro próximo dos deles...
Com boa comida e salutar convívio, tudo regado com bom vinho nacional, é feito o jantar! E assim se termina o resto do dia de sábado, em amena cavaqueira já pela noite dentro... afinal amanhã é domingo.



O domingo é passado na companhia de alguns portugueses conhecidos e outros que conheci ao longo do dia...
Já perdi a conta aos domingos que passei na estrada... a maioria por França a caminho de casa, outros em variados locais espalhados por essa Europa fora como Espanha, Alemanha, Holanda, Bélgica, Polónia, Itália... Uns com neve e frio, outros com um calor abrasador! Cada domingo tem a sua história... uma boa parte do tempo gosto de dedicar à culinária e à limpeza da cabine.
Sejam passados em movimentadas estações de serviço procurando convívio com outros colegas de profissão, ou na companhia da minha solidão, desenhando, lendo ou escrevendo, por vezes em despovoadas zonas industriais, tento sempre preencher de forma positiva esse tempo para não ser tempo perdido. Por vezes, mesmo em movimentadas estações de serviço, por falta de qualidade da companhia presente, opto por estar simplesmente na companhia da minha solidão... Nem sempre muita gente é sinonimo de boa companhia! Quando possível aproveito para passear um pouco e conhecer melhor a zona envolvente, visitando alguma aldeia ou vila, indo à descoberta de algum monumento de interesse, ou simplesmente andando sem destino definido munido apenas do meu espírito de explorador...

 Mas uma coisa têm todos esses domingos em comum: o bater do coração ao ritmo da Saudade e a Família presente em pensamento...

Depois de descansar um pouco durante a tarde de domingo, preparo tudo para dar inicio a mais umas horas de viagem. Sei que só preciso de rolar umas quatro horas, o suficiente para ficar a menos de 1400 quilómetros da primeira descarga, cumprindo assim o agendamento das descargas.
Enquanto aguardo pela hora certa para regressar à estrada, ouço a chuva tocada a vento bater com violência na cabine, chegando a abanar o meu Cavalo de Aço. Como um dia tão bonito se transformou numa tarde chuvosa, penso eu... Sei que por mais que chova a viagem tem que ter inicio hoje à noite!... Se não fizer pelo menos 350 quilómetros não vou alcançar o objectivo de descarregar o primeiro cliente na 3ª feira, como agendado, dificultando também os meus planos pessoais de ficar vazio na 4ª feira e celebrar o sempre esperado reencontro familiar...
Abrigado e confortavelmente instalado na minha cabine, pego no meu bloco de notas e vou rabiscando palavras que me são sussurradas pela Saudade... o vento sopra... a chuva cai... o coração sente a Saudade... e enquanto o coração recebe o sussurrar da Saudade, a mão escreve no papel... a Saudade bate e o coração aquece!...

Palavras que depois de escritas, relidas e reorganizadas, sentindo o seu paladar agridoce, transformei nestas quadras:


COM O CORAÇÃO QUENTE. 

Mais uma viagem
Pelo norte da Europa!...
Saudades na bagagem...
Meu coração galopa. 

Com a distância
Sinto uma dor...
Sinto uma ânsia...
Coisas do AMOR! 

Com chuva e vento
Sigo na estrada,
Pela noite dentro
Penso na minha AMADA!

Penso no reencontro
Pelo caminho contente. 
Cada quilómetro que conto
Sinto o coração quente!

Entretanto o despertador toca a lembrar que faltam dez minutos para a hora de rolar... ligo a maquina e inspirado no seu roncar escolho uma musica adequada à tenebrosa e tempestuosa noite...


Ponho a maquina na estrada... Chegou a hora de dar calor!
Com a Família no pensamento ponho o pé no acelerador e pico o meu Cavalo de Aço rasgando o caminho encharcado pela chuva... poucos carros rolam a esta hora... na companhia da Segurança e espicaçado pela Audácia, sigo rolando com a atenção redobrada e a destreza de quem, moldado pela experiência, sabe aquilo que faz... a noite não está para brincadeiras!
Sei que esta será a ultima noite passada em França e também sei que o local para passar o que restar da noite não está longe!...

Amanhã vou entrar na Península Ibérica...



Comentários

  1. Que palavras tão bonitas❤️ gratidão é aquilo que sinto por as nossas vidas se terem cruzado❤️ és tudo aquilo com que sempre sonhei ❤️ dizer Amo-te é pouco para definir tudo o que sinto por ti ❤️

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