Parte V - A magia do regresso.
Depois da ultima descarga, envio uma mensagem a avisar que estou vazio. Procuro um parque e aguardo resposta. Sei que a resposta tanto pode ser rápida, como pode demorar umas horas. Entretanto aproveito para organizar algumas coisas. Arrumo as cintas, varro a galera, reabasteço o deposito de água, dou uma limpeza rápida à cabine e por fim faço um café. Ter as coisas organizadas à minha volta dá-me paz de espírito proporcionando um melhor ambiente de trabalho!
O tempo passa e a mensagem não chega...
Fico entregue aos meus pensamentos enquanto tomo o café... Pego no livro que estou actualmente a ler e mergulho dentro da historia, saindo de forma quase instantânea de onde estou para a Riviera Francesa, local onde se desenrola a acção. O livro é "O Jardim do Éden" de Ernest Hemingway. Um conturbado triângulo amoroso passado nas belas praias da Côte D'Azur.
Nunca gostei de estar à espera de uma forma vã! A vida é vivida no tempo presente e com a idade aprendi que sempre que tenho tempo livre devo aproveita-lo para fazer algo útil, como por exemplo ler um livro. Esperar só por esperar é uma perda de tempo, um desperdício! Esta profissão tem muitas esperas, portanto considero muito importante saber tirar proveito desse facto. Há quem diga que tempo é dinheiro. Realmente estão muito relacionados, pois precisamos de tempo para ganhar dinheiro, mas não podemos gastar dinheiro a comprar tempo. O tempo simplesmente passa de uma forma inexorável e constante... Poupar tempo é uma ilusão! Tento ter um livro sempre por perto, pois considero que ler é uma forma muito enriquecera de passar tempo e a mais barata de viajar, não só no espaço como também no tempo...
Um som quebra a viagem onde estava embarcado e traz-me de volta à realidade... É uma mensagem com três moradas seguida de um telefonema com algumas indicações especificas. Guardo o livro e pego no meu caderno de apontamentos apontando algumas das indicações que me parecem importantes. Pego no GPS e verifico a localização exacta de cada recolha. Mudo de Jazz para um registo mais agressivo que me ajuda a lidar com o trânsito destas paragens... Traço uma rota e mergulho no complicado trânsito alemão direcção a norte dando inicio ao retorno. Sinto uma motivação extra que me inunda, chegando a sentir adrenalina a acorrer pelo sangue despertando os meus sentidos e estampando um sorriso no meu rosto... O meu retorno teve inicio. Dentro de dias estarei a celebrar o reencontro com a Família. Esta excitação dá-me uma motivação extra que me ajuda a lidar com as cargas que ainda tenho pela frente.
Tudo a correr bem e como o previsto... O ultimo cliente que fica perto de Dresden, lá mais para norte. Sigo pela verdejante paisagem alemã com os seus frequentes bosques. Atravesso profundos vales através de altas pontes que me permitem ter espectaculares vislumbres da paisagem, que apesar de relativamente fugazes, ficam de forma indelével gravados na minha memoria. Pena não ter tempo para parar e apreciar melhor a paisagem... No recorte de uma colina vejo a silhueta de um enorme e belo palácio. Não é muito difícil ver esse género de construções, pois tenho reparado em vários espalhados por diferentes zonas da Alemanha.
-Ainda hei-de percorrer estas paragens com a minha Família!- pensos em voz alta.
Saio da autoestrada e faço alguns quilómetros por estrada nacional até alcançar o cliente. Vou passando por algumas aldeias com as suas casas de construção típica transmitindo uma beleza e harmonia particular. Na Alemanha as aldeias são muito organizadas, as casas têm os seus jardins envolventes bem tratados e as estradas estão bem conservadas e sinalizadas, no entanto também já passei por locais menos bons.
Um dos números de circo que eu sempre gostei é o do mágico... um clássico:
Depois de anunciado pelo anfitrião do circo, o mágico entra em cena! Acompanhado por uma linda e sensual assistente, cumprimenta a plateia, tira a cartola da cabeça e mostra-a vazia a toda a plateia, e de repente... com o rufar dos tambores como banda sonora... tira um coelho da cartola!
Ninguém sabe ao certo como aquele coelho lá apareceu, mas apareceu e o mágico mostra-o a todos enquanto é saudado com um forte e sonoro aplauso da plateia!...
No circo é assim a magia... mas na vida real também existem mágicos!
Mas são outro tipo de mágicos que trabalham na sombra sem serem vistos, não são anunciados por um bem vestido anfitrião, nem são calorosamente aplaudidos.
São Homens e Mulheres, que saem de perto das suas Famílias para percorrer os quilómetros necessários, por vezes milhares deles... pela noite dentro, outras vezes durante o dia... com chuva, neve, vento, calor ou frio... por montes e vales... pontes e túneis... através de vários países... com a Saudade a apertar o coração... seguem pelo caminho passando pelos complicados engarrafamentos das cidades... rolam pelas intermináveis planícies... sempre com a Família no pensamento e com a ideia concentrada no reencontro! Tudo sempre com um único objectivo: fazer a magia de ter os vários produtos e matérias primas em movimento, de e para onde for necessário, mantendo a nossa moderna sociedade a funcionar.
Na nossa actual sociedade tudo passa por um camião!Seja um contentor saído de um barco ou comboio, sejam componentes saídos de uma fábrica, ou produtos acabados levados de um armazém para o consumo, etc.
Quando vamos ao supermercado não nos interessa como as coisas lá chegaram, o importante é que estão lá... talvez seja magia!
É com muito gosto e orgulho que eu sou um desses mágicos, praticando a magia de por a nossa sociedade em funcionamento.
Entretanto alcanço o ultimo cliente, carrego e dou inicio ao regresso... agora a minha magia vai começar! Deste ponto em diante cada quilometro percorrido diminui a distancia entre mime a minha Família.
O dia já vai longo e a minha amplitude já não me permite andar muito mais. Dou inicio à aventura que é encontrar um local para parquear o camião num dos sempre cheios parques das autoestradas alemãs. Durante o dia a tarefa é fácil, mas depois das 18 horas tudo se complica... Depois de uma complicada manobra para colocar o camião de marcha a traz no único buraco disponível e com tempo contado para não exceder o horário, finalmente fecho as cortinas. É a hora do descanso do magico...
(continua...)








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