Parte III - A viagem e a paisagem.

O despertador toca a lembrar as responsabilidades...
Acordo a tempo de ver o nascer do sol. Ouço o chilrear de pequenos pássaros esvoaçantes... sempre gostei de observar o voar dos pássaros! Parecem festejar o inicio de mais um dia de Primavera cantando enquanto voam em redor de uma árvore próxima do local que escolhi para pernoitar.

Nesta profissão os dias são todos diferentes, ontem o meu dia teve inicio a meio da manha, hoje começou umas horas mais cedo e amanhã irá começar ainda de  madrugada. Nunca gostei de rotinas e nesse ponto esta profissão encaixa bem comigo, mas não é para qualquer um. É muito importante saber lidar bem com a adversidade, a Saudade, a solidão entre outras circunstâncias que são um bicho de sete cabeças para muitas pessoas! Para mim o bicho de sete cabeças seria ter uma vida presa a uma rotina do tipo: fechado num local das 9h as 18h com uma hora de almoço pelo meio.... ter as folgas iguais às das outras pessoas e falta de adversidade para resolver! Eu não nasci para ser mais uma ovelha no rebanho! Eu sou do tipo Lobo Solitário. Tal como o lobo saio para caçar sem medo das dificuldades e imprevistos, depois volto para junto dos meus transportando Amor, Alimento, Conforto e Segurança!

Já vou no terceiro dia de viagem e apesar da Saudade nunca me abandonar, está relativamente mais diluída no meu estado de espírito. Depois da higiene diária, tomo o pequeno almoço enquanto recebo a energia transmitida pelos ainda fracos raios solares do inicio do dia. Um espectáculo a que já perdi a conta às vezes que assisti. Ver nascer o Sol transmite-me energia positiva e lembra que todos os dias há um dia novo pronto para ser vivido! Mesmo nos dias mais negros, chuvosos e ventosos o Sol está lá, as nuvens é que o escondem....Na realidade todos os dias são sempre lindos dias de Sol!

Sinto-me observado... são os pequenos pássaros que agora voam também em redor do meu Cavalo de Aço, certamente a aguardar a minha partida para limparem algumas migalhas que sobrem do meu pequeno almoço... propositadamente deixo cair dois ou três bocados de pão para ajudar ao festim que se vai seguir à minha partida.

Depois de umas rápidas verificações de segurança ao meu Cavalo de Aço e à carga, dou inicio a mais um dia de viagem. Rolo pela perigosa Rota do Centro, onde irei passar na conhecida Estrada da Morte... percorro assim o Maciço Central Francês com os seu vastos campos cultivados, uns com cereais, outros com plantações variadas  já a florir. Umas saltam à vista pintado largos hectares da paisagem de flores amarela enchendo-a de cor... no ar paira o característico aroma primaveril!...
Vou saltando de uma estrada para a outra, por vezes junto a enormes lagos com as suas diversões aquáticas bem visíveis da estrada, ou próximo de pequenas vilas e aldeias com algumas das suas pitorescas casas também visíveis, sempre em direcção a Leste. Começo na  N145 onde dormi, e depois é sempre a rolar... É mais um dia sempre a dar calor!!


Recebo um telefonema. A rota sofreu umas pequenas alterações... O terceiro cliente terá que passar para primeiro e o primeiro passa a terceiro... Alterações de última hora, uma chatice que por vezes sucede. Terei que movimentar carga no primeiro cliente e reajustar a carga. E com as alterações decido entrar na Alemanha por uma outra fronteira mais a norte  a fronteira de Baden-Baden.

Em Mulhouse viro para norte e entro na A35, ainda em França. Sigo relativamente perto das montanhas francesas à esquerda, e as longínquo-as montanhas alemãs a perder de vista no horizonte pela minha direita, com o Rio Reno como companhia segui a minha viagem através da planície...

Na silhueta das montanhas francesas, consegui ver, envoltos num mágico nevoeiro, primeiro o castelo de Haut Koenigsbourg e uns quilómetros mais à frente o castelo de Ramstein. Belos monumentos com séculos de história que ornamentam a paisagem de uma forma, que é difícil passarem despercebidos ao olhar dos viajantes.
Entretanto, escondida na paisagem, está a LINHA MAGINOT!...
Pouco conhecida e longe dos fugazes olhares de quem passa, a Linha Maginot é constituída por uma complexa rede de túneis fortificados que ligam fortificações defensivas.
A Linha estendesse por toda a fronteira francesa com a Alemanha e Itália, a parte italiana também é conhecida como Linha Alpina.
Apesar de bem construída, estava pensada para a guerra de trincheiras e não resistiu à potente estratégia militar utilizada pela Alemanha Nazi, a "Blitzkrieg" ou guerra relâmpago. Esta estratégia concebida pelo General Alemão Erich Von Manstein, utilizava a infantaria acompanhada de potentes blindados coordenados com forte apoio aéreo!


Ao viajar por esta actualmente pacífica planície, mas com uma carga histórica terrível, consigo imaginar e quase sentir os momentos de tensão aqui vividos... quantos gritos?... quantos tiros?... quantas vidas aqui terão encontrado a paz eterna durante a guerra?...
Muitas vezes, belas e calmas paisagens, escondem sangrentas e sinistras histórias!

Apreciar uma paisagem sem a entender é como entrar num restaurante, mandar vir, olhar para o prato de comida... e ir embora sem comer!
As paisagens também podem ser saboreadas...

Depois de finalmente alcançar o cliente pretendido, descarregar e reorganizar a carga procuro um local para pernoitar... O horário já não dá para mais! É chegada a hora do descanso do "guerreiro"... Amanhã é outro dia!

(continua...) 

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