Recordações II - A rolar na Península Ibérica...

O despertador toca… Início de mais um dia!

Espreitei pela cortina para me conectar com a realidade exterior. Aparentemente tudo tranquilo lá fora. Preparei um café instantâneo e organizei o interior do meu Cavalo D'aço. Peguei na minha bolsa de higiene diária e fui até à estação de serviço com o objetivo de tomar um revigorante duche. Manter a cabine bem organizada e perfumada, era tão importante como manter uma boa higiene diária. Afinal aquela seria a minha casa durante um alargado período de dias.



Acordar todos os dias num local diferente, era uma interessante experiência. Depois de bem conectado com a realidade física do local onde estava, sentava-me confortavelmente e ligava para casa. Era um hábito diário que, mesmo a milhares de quilômetros de distância, me permitia manter a realidade familiar por perto. Eram sempre agradáveis momentos, durante os quais recebia carinho através das doces e quentes palavras que ouvia da minha Mulher. Eram telefonemas cheios de energia positiva, onde encontrava motivação para enfrentar sem dificuldade, os normais desafios da vida de camionista. Telefonemas que ajudavam na sincronização as nossas energias, mantendo uma forte ligação mútua, independentemente da distância física. Falávamos de tudo um pouco… A minha Mulher contava-me as últimas aventuras dos nossos filhotes… Eu falava das peripécias que sempre aconteciam durante as minhas viagens… Ríamos bastante de algumas piadas que eu soltava… E abordávamos também alguns assuntos importantes da vida quotidiana. A nossa cumplicidade, juntamente com a confiança e o respeito mútuo, eram importantes pilares que, mesmo a quilômetros de distância por alargados períodos de tempo, mantinham o nosso relacionamento firme saudável e a funcionar.

Terminei a chamada.- Por momentos pareceu-me que estávamos juntos…- pensei. 

Levo um choque de realidade! Afinal estava dentro da minha cabine, na A2, um pouco depois de Madrid, pronto para seguir viagem. Apesar dos telefonemas para casa serem sempre muito agradáveis e revigorantes, provocavam uma clivagem entre as duas realidades: a doce realidade da minha Família lá longe; e as emoções da minha vida profissional. Eu adorava esta profissão! Já tinha trabalhado noutras áreas, perto de casa, mas eu não fui feito para ter um trabalho convencional, do estilo das 9h as 18h fechado dentro de um edifício. A ideia de zona de conforto, a que muitos se referem, sempre me pareceu uma espécie de armadilha que nos adormece e nos come o tempo. Quando menos esperamos estamos velhos e a vida passa. A vida é feita de opções, e esta foi a minha opção. Esta clivagem de sensações era um preço a pagar para ter uma profissão que fosse mais do meu agrado. 

Enquanto aguardo pelos minutos finais  do meu descanso diário, sou abordado pela Saudade:

- Porque continuas com esta profissão? Podias perfeitamente voltar ao teu antigo trabalho, mais perto de casa.
- Pois podia, - respondi. - Mas este trabalho foi uma oportunidade que surgiu e eu agarrei. Assim consegui melhorar a robustez financeira do nosso projeto familiar. Quando as oportunidades surgem e nós estamos preparados, é possível construir aquilo a que alguns chamam de sorte.
- E será que vale a pena o esforço? Estar durante tanto tempo distante e longe de quem amas, simplesmente para ganhar um pouquinho mais de dinheiro? Chamas a isso sorte?... Sabes que existem valores muito maiores que o dinheiro? Devias repensar as tuas prioridades! 

A Saudade sempre foi uma fonte de dúvidas pertinentes, por vezes angustiantes.

- Sabes perfeitamente que, quando eu tomei a decisão por esta profissional, já sabia das consequências. Isso é um preço que eu decidi pagar para conseguir dar mais robustez ao meu projeto familiar.- Afirmei com certeza na voz.- Além disso eu adoro as características desta desafiante profissão. Viajar para lá do horizonte… Conhecer países distantes… Contactar com diferentes hábitos culturais… Entre outras desafiantes e interessantes experiências.
- De que adianta ter a Família bem financeiramente se tu estás a maior parte do tempo longe? Sabes que o Tempo e o Dinheiro são duas faces da mesma moeda?- Disse a Saudade.- Viver embalado pela aventura pode ser perigoso.
- Compreendo… Mas por vezes, se queremos um pouco mais de dinheiro, temos de abrir mão de grandes quantidades de tempo. Além disso, uma vida demasiado calma pode levar ao desinteressante marasmo de um quotidiano repetitivo. Considero positivo ter de lidar com os inesperados desafios desta vida de estrada!
- Como já disse, deverias repensar as tuas prioridades!- Repetiu a Saudade.
- Pois, mas agora é assim e tu sabes bem que eu não deixo desafios a meio! Agora não é a altura certa para avaliar este assunto!- respondi a tentar fechar a conversa.- Se surgir alguma oportunidade que permita melhorar o equilíbrio entre o tempo gasto e o dinheiro ganho, irei ponderar fazer alterações. Mas agora não adianta nada continuar com este assunto. Agora esta é a a minha realidade. Tenho de seguir em frente! Depois se verá.
- Irei estar atenta.- afirmou a Saudade.- Sabes que eu não te largo. Se alguma hipótese surgir, não irei permitir que a deixes escapar. É importante teres mais tempo para estares com a Família.
- Sabes perfeitamente que só a quantidade não chega, também é importante manter a qualidade!- disse eu com vontade de terminar o assunto.- Agora tenho que me concentrar e iniciar a viagem!

As insistentes dúvidas lançadas pela Saudade deixavam-me a pensar… Olhei de relance para o tacógrafo. Faltavam uns dez minutos para completar as nove horas de descanso obrigatório. Saí da cabine e fiz as últimas verificações exteriores de segurança, dando também alguma atenção ao ambiente que envolvia o local onde estava.

- Então? Está tudo bem?- Perguntou a Audácia.- Vejo que além das verificações de segurança, também estás a observar as redondezas…
- Gosto de estar em sintonia com o ambiente envolvente. Aparentemente está tudo tranquilo.- Respondi com um sorriso.- Sabes que eu gosto de manter algum nível de alerta ativo, afinal estamos por nossa conta e a uma considerável distância de casa.
- Compreendo! Eu também estou alerta e sempre pronta para te ajudar a entrar em acção para o que for necessário.- Afirmou a Audácia em tom militar.

Terminadas as nove horas de descanso, abri o turno e dei início a mais uma longa jornada de trabalho! Comecei a rolar e voltei a mergulhar na ampla e semidesértica paisagem, típica do interior de Espanha. Para companhia musical escolhi Pink Floyd, criando um interessante ambiente que dava ênfase às enormes dimensões do vazio da paisagem. De alguma forma, que não sei explicar muito bem, também conseguia encontrar espaço na sonoridade dos Pink Floyd. Notas musicais que convidam a mente a viajar através das harmonias habilmente compostas, dando outra dimensão à passagem do tempo. Uma sonoridade que conseguia criar em mim, uma interessante relação entre o tempo, o movimento e a paisagem, soltando doses de prazer no ar que eu absorvia com agrado. Transformava assim o monótono processo de condução em prazerosos momentos de laser. Desta forma conseguia desmontar a pesada ideia contida no conceito de trabalho, soltando as amarras das definições comuns e simplesmente viajava…


Mesmo com um exigente nível de atenção dado à condução, conseguia lançar o meu olhar através da vasta planície. Sentia uma agradável sensação de liberdade… Ao longe reparei numas águias que planavam próximo de um afloramento rochoso. Voavam em círculos, certamente na busca da próxima refeição. De vez em quando lá surgia algum castelo estrategicamente colocado no topo de alguma colina… Imaginava então as batalhas que ali tinham sido travadas, os eventuais cercos de que foi alvo… Gostava de imaginar como seriam aqueles lugares no passado. Além de eu estar fisicamente a viajar, também a minha mente viajava através da minha imaginação, simplesmente por olhar a paisagem…


Rolar por aquela estrada com tal banda sonora, estava a ser bastante prazeroso. A música no ar... O som do turbo a assobiar, que também fazia parte da banda sonora, lembrando a potência da máquina que eu estava a comandar. Mais um castelo a surgir no cenário… Sentia o verdadeiro prazer de viajar. Eu era muito mais que um simples camionista. Era um viajante!

Sentir que as minhas energias estavam alinhadas, dava-me paz de espírito. Uma oportunidade para sorver cada pedaço de prazer até à ultima gota. A Felicidade brilhava… O calor da sua luz aquecia-me o peito e o seu brilho iluminava-me o caminho através do meu olhar… Estava a sacar um enorme prazer daquele momento, levantei um pouco o som, ajeitei os óculos escuros e segui a rolar pelo asfalto, como quem voa baixinho, vivendo conscientemente um agradável momento de prazer.


O prazer nunca acontece nem no futuro nem no passado. Na realidade toda a vida acontece sempre no tempo Presente! Saber aproveitar conscientemente a energia positiva dos momentos é uma arte que ando a aprimorar ao longo dos anos. Atividade que tenciono manter pelo resto da vida! 

Depois de atravessar Saragoça, sai da A2 para a NII. Rolei mais uns quilômetros na NII e o meu estômago começou a dar sinal. Estava na hora de parar para almoçar. Olhei para o tacógrafo e reparei que já tinha rolado perto de quatro horas. Decidi completar as quatro horas de condução e depois parar o primeiro parque disponível. Como habitual, saí para sentir a energia do local e verificar se estava tudo bem com o meu Cavalo D'aço. Ao verificar o estado dos pneus, reparei que tinha um pedaço de metal num dos pneus da tração. O pneu ainda tinha pressão, mas eu sabia que não podia continuar assim. Tentar retirar o pedaço de metal poderia ser pior. 



Tinha agora um problema para o qual eu teria de arranjar solução.

- Não vale a pena ficar a olhar para o pneu.- Disse a Segurança.- A roda não se muda sozinha.
- Pois eu sei…- Respondi um pouco inquietado, enquanto digeria a informação.
- Vamos então ter ação musculada?- Perguntou a Audácia enquanto esfregava as mãos.
- Pois, assim parece que terá de ser.- Respondi eu ainda meio pensativo…
- Então o que esperas?- Perguntou a Audácia enquanto a Segurança me olhava nos olhos.
- Não deves perder muito tempo aqui parado.- Disse entretanto a Saudade.- Ainda tens muitos quilômetros pela frente. Tens que agir para não atrasar a viagem e consequentemente o teu regresso a casa. Quem te ama está à tua espera. Ficar a olhar para o pneu não resolve nada.
As minhas amigas, muito embora por motivos diferentes, estavam agora de acordo. Só a Felicidade que à momentos brilhava, estava agora calma e tranquila, simplesmente a observar.
- Porque esperas?- Perguntou também a Felicidade soltando luz.- Sei perfeitamente que tu adoras resolver problemas desafiantes. Pois ai tens um mesmo à tua frente! Tu sabes o que fazer. É só mais um pequeno problema, nada de mais. Tu sabes sacar prazer nestas situações e eu estarei aqui a brilhar par ti.

O alinhamento de opinião das minhas velhas amigas, fez surgir em mim uma inesperada força que até me fez perder o apetite! Quando nós sentimos que as nossas diferentes energias internas estão alinhadas e a vibrar na mesma frequência, é possível transformar situações relativamente complicadas em desafiantes momentos de prazer. Concentrei a minha atenção na solução, deixando a ideia de problema para traz. Reuni as ferramentas necessárias, e dei início ao duro processo de trocar a roda. Um trabalho bastante pesado que só é possível executar dominando algumas técnicas antigas, como por exemplo, a força potenciada através do uso de alavancas. Como já dizia Arquimedes uns séculos antes de Cristo: "Dê-me um ponto de apoio e moverei a terra." Assim procedi à boa substituição de roda danificada. 



Trabalho terminado, mãos lavadas e preparei rapidamente umas sandes. Depois do assunto resolvido e os níveis de adrenalina novamente estabilizados, o apetite estava de volta. Dei a ultima volta ao conjunto enquanto comia uma das sandes, com especial atenção para ver se não tinha ficado alguma ferramenta esquecida no chão. 

Com tudo novamente operacional, subi a bordo do meu Cavalo D'aço, cansado mas triunfante! Sentia uma mistura de sensações. Por um lado sentia o peso corpo cansado, sujo e suado. Por outro lado sentia a agradável satisfação de mais uma desafiante situação ultrapassada. Fiz umas dezenas de quilômetros, retifiquei o aperto da roda e segui para mais umas largas horas de condução.

Seguia pela planície… O sol já estava perto do horizonte quando cheguei à descida de Fraga. Uma interessante zona onde a planície termina abruptamente, mas continua numa cota mais baixa. É como um enorme degrau que estende na paisagem. Uma descida que demora largos minutos até terminar numa nova planície. 

Acionei o retarder, um sistema adicional de travagem que evita o sobreaquecimento do sistema principal de fricção, mantendo uma velocidade segura.

Havia uma camada de nuvens sobre a planície que estava mais baixo. Via as nuvens de cima para baixo. Um magnifico espetáculo de luz e cor, provocado pela iluminação avermelhada do por do Sol… O dia estava a terminar, mas ainda tinha muitos quilômetros para percorrer até terminar a minha jornada. Desci para dentro das nuvens como quem vem do céu para a terra, numa descida continua e longa… Em poucos quilómetros a noite caiu.
Passei ao largo de Lérida e desviei para entrar na C25, deixando a planície para traz. Entrava agora numa zona montanhosa de paisagem verdejante, mas a paisagem já não me dava a mesma satisfação… A Felicidade deixou de brilhar tirando também brilho à magnifica paisagem verdejante e montanhosa que agora atravessava. A cada quilometro sentia crescer o peso cansaço. As pálpebras a pesar… Optei por fazer uma escolha musical mais musculada para me manter bem acordado. System of a Down e as sua fracturantes passagens de ritmo, encaixavam perfeitamente nas necessidades do momento. 
Rolava pela noite dentro, fazendo algumas contas sobre onde iria encostar para dormir. Não gostava de dormir próximo da fronteira de La Jonquera, um daqueles lugares com uma estranha energia negativa no ar... O mesmo acontecia na maioria dos parques da rota sul de França em direção a Itália.



Decidi que iria para em Figueres, uns quilômetros consideráveis antes da fronteira. Uma simpática zona industrial, com uma interessante pizzaria que vendia pão quente pela manhã. Também tinha duches na estação de serviço onde eu costumava encher os depósitos de combustível do meu Cavalo D'aço. Estava decidido onde iria dormir, mas ainda faltava rolar uns bons quilômetros até lá chegar. Já só pensava em parar, tomar outro duche, comer uma refeição quente e descansar.

(Continua…)





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