Depois de um revigorante pequeno almoço, depósitos do camião cheios e estava a rolar em direção à fronteira francesa. À medida que subia a montanha, as nuvens ficavam mais densas. As previsões eram de tempestade com ventos fortes…
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Recebo um telefonema de casa. Lá longe, algo de inesperado e preocupante tinha acontecido a um dos nossos filhos, e eu ali tão longe… Uma sensação de impotência tomou conta de mim. Ouvia em silêncio as aflitas palavras da minha Mulher, tentando entender melhor a dimensão e alcance do problema. Saber que um dos nossos filhos estava em sofrimento partia-me o coração. O som da chuva forte misturava-se com a voz aflita da minha Mulher… A cabine abanava com os ventos fortes, assim como o meu interior abanava com as palavras que ouvia. A chuva escorria nos exterior da cabine enquanto eu soltava em silêncio lágrimas vindas do meus interior mais profundo. Sentia a necessidade de abraçar a minha Mulher, mas estava preso a uma realidade fisicamente distante, mesmo muito distante. Saber que a minha Mulher lá longe, estava a encarar tal situação sozinha, aumentava o meu sofrimento. Mas por dentro estávamos juntos. Nada, nem mesmo aquela enorme distância, conseguia anular a força do magnetismo que nos ligava.
Baixei um pouco a velocidade enquanto digeria a informação…
Naquele momento precisava de olhar a minha Mulher nos olhos e dizer-lhe que a amava. Depois abraçá-la longamente enquanto lhe sussurrava ao ouvido palavras reconfortantes. Dizer-lhe que tudo se iria resolver e acabar bem. Mas o que me era possível fazer, era abraça-la com palavras…
Palavras que me saíam de dentro…
Palavras de confiança e compreensão.
Palavras confiantes, que tentavam esconder as incertezas que me assaltavam os pensamentos.
Mesmo sem soluções, tentei concentrar a minha atenção em demostrar que, independentemente das dificuldades, estávamos juntos.
Por momentos a minha mente saltou a galope, como um cavalo selvagem a correr sem destino, sem dar sinais de querer parar! Tentei controlar a desordem do intenso fluxo de pensamentos.
Depois de uma longa conversa, com momentos conturbados, olhei em frente e enfrentei a tempestade. Vivia uma realidade cruzada entre a tempestade real, por fora do camião e a tempestade vinda de longe, que se instalara dentro da minha cabeça. A solidão do momento pós telefonema, deixou um vazio que rapidamente se preencheu com um grito que soltei enquanto batia energicamente no volante. As lágrimas escorriam… A sensação de impotência marcada pela distância, era de um peso brutal. A vontade de estar noutro lugar, sabendo que iria demorar vários dias até regressar, era uma realidade pesada… E rolava na direção oposta, facto que me pesava a cada quilometro percorrido.
- Tens de parar para descontrair. Estás muito tenso.- Diz em tom preocupado a Segurança.
- Calma. Tenho tudo sob controle.- Respondi com os olhos vidrados na estrada.
- Estas condições atmosféricas não estão para brincadeiras e tu estás a dividir muito a tua atenção com o novo problema. É importante parar um pouco.- insistia a Segurança.
Entretanto o transito começou a ficar denso até que parou. Reparei numa caravana de turismo tombada na estrada… O vento estava realmente forte! Mais à frente estava uma carrinha também tombada. Toda a cabine abanava violentamente. Com o camião parado o vento era ainda mais assustador. Por vezes o vento era tão forte e contínuo, que me virava os espelhos exteriores. Apesar da situação climática exterior estar assustadora, tudo aquilo me começou a parecer indiferente em relação à tempestade que se desenrolava no meu interior…
- Vejo que isto hoje está complicado. - Diz a Audácia.
- Mantêm-te atenta.- Respondi com firmeza. - Isto hoje está realmente complicado em diferentes dimensões.
- Sempre operacional!- Respondeu prontamente a Audácia em tom militar.
- Então e quando paras?- Diz a Segurança
- Parados estamos nós!- Respondi com impaciência na voz.- Além disso, agora não há local seguro para parquear. Nesta altura o importante é garantir que vamos sair bem daqui. Depois logo paramos.
Passado algum tempo, passou uma ambulância e pouco depois um camião grua… Algo de grave tinha acontecido mais adiante. Entretanto, a percepção da real gravidade do momento dissipou parte da importância do outro problema, invertendo o meu foco. Mas bastava recordar as aflitas palavras da minha Mulher, para o problema voltar a ter nitidez. A confusão dentro da minha cabeça estava a roçar o caos. O meu grau de alerta era tal, que a relação de importância das coisas estava deturpada. Um par de horas depois, comecei a ver as luzes de emergência. Um camião tinha tombado ficando atravessado e obstruindo boa parte da via. Carregava placas de isolamento que estavam agora espalhadas pela estrada, algumas ainda a esvoaçar para longe. Uma carga muito leve. Isso era um fator que eu tinha a meu favor. A minha carga era relativamente pesada. Esse pensamento deu-me algum conforto e segurança, importantes ingredientes para conseguir manter alguma calma.
Comecei a fazer contas por causa do tempo perdido… Só ao fim do dia saberia avaliar melhor a situação, portanto tirei daí o pensamento. Comecei a organizar melhor toda a informação. Era muita coisa a acontecer ao mesmo tempo. A chuva e o vento foram acalmando, à medida que me afastava daquela zona. Tudo estava a acalmar e eu a rolar… Cansado e desgastado, procurei um parque e parei para a uma refeição quente, mas não tinha animo para cozinhar. No entanto, tinha de comer alguma coisa. Fiz umas sandes e preparei as coisas de maneira a que, quando parasse ao fim do turno, pudesse fazer um jantar reforçado. Todo este desgaste emocional iria exigir uma boa reposição de energias.
Voltei à estrada!
Tinha planos para dormir já dentro de Itália, mas ainda tinha que rolar algumas horas até alcançar a fronteira. O desgaste mental somava-se ao cansaço físico. Para não cair no abismo da depressão, decidi colocar um som mais musculado para dar outro
ânimo à viagem. Passava por Aix-en-Provence, uma zona com paisagens bastante interessantes, um pouco a norte de Marselha. Mas naquele, dia tudo parecia ter perdido o brilho e nada me parecia interessante. Tinha de organizar melhor as minhas ideias para poder compreender melhor o problema. Depois de analisar novamente o que sabia, surgiram-me algumas dúvidas. Elenquei as dúvidas e organizei o melhor possível a minha mente.

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Recebi um novo telefonema.
Deixei a minha Mulher falar enquanto quis… Debitava informação a uma velocidade impressionante. Queria que ela desabafa-se à vontade, sabia que isso a aliviava. Sentia a angústia que lhe ia saindo pela voz. As notícias que ouvia eram animadoras. O problema estava a ter uma evolução positiva e dentro das possibilidades, o nosso Filho estava calmo e a lidar bem com a situação. Ouvir aquela pequena mas importantíssima informação, teve como que um efeito calmante quase instantâneo, que me permitiu repor a minha lucidez em níveis estáveis. Então conduzi a conversa mais calmamente, por forma a tirar algumas dúvidas que tinha. Assim consegui organizar muito melhor toda a situação dentro de mim, ficando capaz de enviar assertivas palavras de confiança e esperança, para dessa forma, também acalmar a minha Mulher.
Depois de terminar o telefonema, estava muito mais tranquilo. O problema continuava a existir, mas o facto de o compreender melhor e de saber que o nosso Filho estava a lidar bem com a situação, deu-me renovado ânimo para seguir em frente. Levantei o som e concentrei a minha atenção na estrada. Passei por Cannes, depois Nice e alcancei a subida do Mónaco. Nessa altura sabia que já estava próximo da fronteira de Itália.

A estrada de Vintemiglia era uma estrada cheia de túneis e pontes, com uma paisagem espetacular. À esquerda as imponentes montanhas alpinas e à direita o mediterrâneo, que se estendia até ao horizonte. Aqui e ali dava para ver algumas docas com os seus luxuosos e coloridos iates. É realmente uma estrada singular, sendo impossível por lá passar e ser indiferente à paisagem. Saía de um túnel e entrava numa ponte, depois outro túnel e outra ponte. Parecia que atravessava aquela paisagem irregular voando, perfurando a enorme quantidade de montanhas. Segui a rolar perdendo a conta aos túneis que atravessava e um pouco antes de Gênova, saí da A10 desviando para a A26, tomando a direção de Milão. Comecei a subir a A26 e o cansaço ordenou que parasse no primeiro parque que me surgisse. Escolhi um Autogrill que já conhecia bem, com excelentes condições como: Parque para viaturas pesadas, um pequeno minimercado, café, duches e uma extraordinária vista para o mediterrâneo. Parqueei no limite do parque, ficando junto de um relvado. Depois de um revigorante duche, preparei calmamente as coisas para cozinhar. Telefonei para casa, as coisas estavam calmas e controladas. Um telefonema que serviu para, tanto eu como a minha Mulher, ficarmos bastante mais descontraídos.

Abri uma garrafa de vinho para beber um copo e descontrair enquanto cozinhava. Estava sozinho ao canto do parque e conforme cozinhava ia pensando descontraidamente no conturbado dia que agora estava a terminar. Comi com satisfação e repeti. Depois de tudo arrumado, fiquei a olhar o luar enquanto terminava o meu vinho… Apreciava as belezas do céu noturno, que finalmente ficou livre de nuvens. Descontraído e em silêncio saboreava o último copo de vinho enquanto olhava para o mediterrâneo e navegava livremente por entre o vasto mar dos meus pensamentos…
(Continua…)
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