Recordações I - Inicio de viagem.
Revisitar o passado, recordando partes do percurso percorrido até ao presente, ajuda-me a iluminar o caminho desta indelével viagem em direção ao futuro a que chamamos Vida. Recordar é também uma forma possível de viajar virtualmente através do espaço tempo.
Estávamos em 2017 numa tarde solarenga de Domingo.
Depois de uns agradáveis dias passados em família, rolava no IC19 a caminho do meu Cavalo D'aço! Na cabeça trazia o eco dos bons momentos passados em família: O som das gargalhadas dos meus filhos, acompanhadas por expressivos olhares de alegria… Os maravilhosos momentos passados a dois com a minha Mulher e os demorados beijos e abraços da despedida. Sentia uma estranha sensação que me apertava o peito… Efeitos da saudade! Tinha de me concentrar na viagem! Paralelamente à saudade, crescia também a vontade de partir para mais uma aventura pelas estradas da nossa Velha Europa. Cada viagem uma aventura… A hipótese de surgirem inesperados e desafiantes acontecimentos, estava sempre presente, fator que mantinha viva a minha audácia, característica treinada durante a minha dura vida militar.
À chegada ao camião, peguei nos documentos da carga para verificar o destino da viagem. Carga direta para Tricesimo, uma pequena localidade do norte de Itália, encostada lá para leste, relativamente próxima da fronteira com a Eslovênia. Apesar de já ter feito múltiplas viagens a Itália, ainda não conhecia aquela zona específica. Calculei a distancia aproximada e estabeleci um plano de viagem simplificado. Conhecer bem as diferentes rotas europeias ajudava-me muito a escolher bons locais para dormir. Tricesimo localizava-se a cerca de 2550 Km da posição onde estava, portanto seriam necessários uns três dias e meio para alcançar o destino. Olhei para o trajeto, dando especial atenção à parte final. Para esse efeito gostava de abrir os meus antigos mapas em papel e seguir o trajeto com o dedo, imaginando as paisagens e eventuais paragens para descansar. Um hábito antigo do tempo em que viajava sem GPS.
Depois de estabelecer o plano de viagem e terminar de organizar a cabine, dei início às ultimas verificações exteriores de segurança. A segurança tem um papel muito especial nesta profissão. Antes de iniciar uma nova viagem, dava sempre uma volta ao camião para proceder às ultimas verificações de segurança, hábito que ainda mantenho hoje em dia. Verifiquei então qual o tipo de carga e as suas amarrações, retificando caso necessário. Verifiquei também o bom estado e a pressão dos pneus, o bom funcionamento das luzes, se o engate da galera estava bem fechado, se todos os cabos das ligações estavam em boas condições, etc. Verificações que normalmente terminavam com um olhar de contemplação para as imponentes dimensões do conjunto. Terminadas as verificações, ajustei o banco para uma boa posição de condução, peguei nos óculos escuros, motor a roncar e fiz-me à estrada!
Aos comandos do meu Cavalo D'aço, seguia pelo asfalto em direção a Itália…
Sempre que dava início as estas longas viagens, ficava com o meu pensamento dividido entre a saudade de tudo o que ficava para trás, e a agradável emoção do início de mais uma longa e desafiante aventura. Normalmente colocava uma música escolhida instintivamente. A escolha musical poderia variar muito, desde música clássica, jazz, rock, ou até musicas mais musculadas de heavy metal. O importante era que a música me ajudasse a dissipar a atenção dada à saudade. Assim, com a música a preencher o ambiente da cabine, dava início ás minhas divagações e diálogos internos. Um habito que foi surgindo naturalmente. Uma forma que encontrei para combater a solidão desta profissão… Quando aprendemos a fazer companhia a nós próprios, dificilmente nos sentimos sozinhos.
Rolava na Ponte Vasco da Gama para apanhar caminho em direção à N4 e seguir para a fronteira. Depois de cruzada a fronteira era quando realmente começava a viagem internacional. A partir dali já não se falava a língua de camões. A partir dali a aventura pelas estradas europeias iria ter início! O plano era dormir na A2, depois de atravessar Madrid durante a noite. Daí seguir até ao sul de França… e ao fim do terceiro dia já estaria a dormir dentro de Itália, a menos de 500 kms do objetivo! Um plano simples que ia sendo atualizado diariamente.
A concentração que dava à estrada, tornava-me recorrentemente introspectivo… Normalmente nessas alturas, dava início a interessantes diálogos com as minhas conselheiras e antigas companheiras de viagem.
Em primeiro apresento-vos a minha amiga SAUDADE, a que sempre marcou presença com maior veemência nos meus pensamentos. A Saudade faz-me recordar tudo o que gosto e o que já gostei! Faz-me recordar as pessoas que Amo, mesmos as que já partiram… A saudade tem um enorme poder sobre nós! Pode trazer a dor da ausência, mas também transporta uma potente força, que por mais longe que eu vá, sempre me puxa de voltar a casa! Uma espécie de magnetismo… Uma força que me ajuda a manter no trilho certo através dos sinuosos caminhos da vida. Tal como uma bússola, vai me indicando o norte… Uma força que não me deixa esquecer o passado e constantemente me empurra para perto de quem Amo!
A apresento-vos também a minha amiga AUDÁCIA, a que sempre me deu a intrepidez necessária, para que eu conseguisse transpor os mais complicados obstáculos com sucesso. A Audácia tem fortes raízes na minha vida militar, sem duvida uma altura marcante da minha vida! Altura da minha vida em que percebi que "impossível" é só mais uma palavra no dicionário. Foi onde aprendi a transpor uma enorme quantidade de desafios, tanto físicos como mentais, superando recorrentemente limites pessoais. Foi quando eu aprendi que os limites do ser humano estão muito para lá daquilo que vulgarmente imaginamos. Então, foi desde essa altura, que a audácia passou a fazer parte da minha forma de olhar o mundo.
De seguida apresento-vos a SEGURANÇA, a que sempre teve e continua a ter, um papel muito importante para a minha profissão. A Segurança normalmente mantinha uma postura atenta, especialmente quando eu operava máquinas pesadas. A Segurança dava especial atenção aos procedimentos, ajudando a decidir adequadamente quais as melhores ações, para minimizar os riscos de acidente. Com a imprescindível presença da Segurança, mantinha uma postura prudente, garantindo bons regressos a casa. Normalmente a Segurança era objetiva, dando pareceres assertivos.
Claro que não podia faltar a minha grande amiga FELICIDADE, dona de uma reconfortante luz, que normalmente só surgia com especial intensidade por momentos. Não era fácil fazê-la brilhar, assunto que ando a aprimorar desde tenra idade… Mas quando brilhava, revigorava-me o corpo e mente, afastando cansaços fortalecendo-me por dentro. O brilhar da Felicidade conseguia encher de cor até alguns momentos banais, dando outro paladar aos momentos iluminados pela magia da sua luz. Com a Arte de fazer de cada dia um bom dia eu mantinha parte do seu brilho aceso.
O AMOR também estava presente, mas normalmente não verbalizava ideias, simplesmente estava… O Amor não precisava de falar, a sua presença era forte o suficiente para vincar as suas ideias. O Amor ajuda a preencher a Vida com coisas positivas. Uma vida sem Amor é uma vida vazia.
Assim, com os olhos na estrada, seguia imerso nos meus pensamentos… A fronteira já tinha ficado para trás. Seguia agora na A5 em direção a Madrid. A quantidade de terreno descampado era agora maior. Por vezes pensava que o interior de Espanha parecia um enorme deserto. A monotonia da paisagem juntamente com o cansaço de largas horas a conduzir, começava a hipnotizar-me o pensamento, desviando a minha atenção da condução.
-Em que raio estás tu agora a pensar?- Perguntava preocupada a Segurança.- Vejo que já estas a ficar demasiado cansado… Tens de encostar para descansar! Continuares assim na estrada é uma irresponsabilidade.
-Ele consegue seguir sem problemas. Eu sei que ele aguenta isto e muito mais- Respondeu a Audácia e continuou.- recordo a bravura deste homem e de como é operacional! Ele tem tudo controlado.
-Pois, mas não há a necessidade de arriscar. Lutar contra o cansaço ao volante é sempre uma guerra perdida. Proponho que ele pare para descansar, nem que seja só para esticar as pernas e apanhar um pouco de ar,- Disse a Segurança. - Assim é que não pode continuar.
Normalmente as minhas velhas companheiras raramente estavam com as ideias alinhadas. Cada uma tinha o seu próprio ponto de vista, abrindo espaço para variadas discussões.
-Calma meninas!- disse eu.- Paramos na próxima estação de serviço para tomar um café. Depois continuamos! É importante atravessar Madrid durante a noite para evitar o transito diurno. Não quero começar a fazer alterações ao plano de viagem logo no primeiro dia.
As duas concordaram com a minha ideia. Enquanto isso, reparei que a Saudade falava baixinho com a Felicidade. Perguntei sobre o que falavam, as duas responderam de forma evasiva, dando a entender que também estavam cansadas.
Parei numa estação de serviço e tomei um café em amena cavaqueira com a Audácia. Falávamos sobre recordações e loucuras da minha vida militar. A Segurança mantinha-se em silencio mas muito observadora. Após o café, lá encontrei as forças necessárias para seguir o caminho e atravessar Madrid, mas sempre com a Segurança atenta e preocupada a dar indicações.
Assim que alcancei a estação de serviço que tinha em mente, foi só parquear, fechar as cortinas e entrar na cama… em poucos minutos já estava a navegar no profundo mundo dos sonhos.
(Continua…)





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