Parte I - A despedida.


Introdução.

Agora, passado algum tempo que juntamente com a minha Família nos mudámos para a Noruega, admito que vou sentindo saudades dos tempos em que estive ligado ao serviço internacional como motorista de pesados. Durante esses anos, apesar das dificuldades inerentes à profissão, tive a oportunidade de conhecer grande parte dos países europeus e suas maravilhosas e variadas paisagens.
Agora, movido pela saudade desses tempos e baseando-me nos meus apontamentos diários, decidi redigir e aqui partilhar algumas dessas experiências e viagens mais marcantes.



A despedida.

Depois de mais uma montanha russa de emoções um último abraço.
Peguei na minha bagagem e desci as escadas... olhei para cima e lá estava a minha mulher com um dos meus filhos a acenar. Um último adeus e virei costas. Enquanto fechava a porta ainda consegui ouvir no eco da escada uma frase do meu filho a falar com a mãe: "Ó pá, que chatice... O pai agora vai demorar muito tempo!"

Com a sempre magnifica e misteriosa Serra de Sintra, iluminada com a magia dourada do final do dia como pano de fundo, segui pelo IC19 para o meu Cavalo de Aço, com o eco da frase do meu filho dentro da cabeça...
Depois de umas rápidas verificações de segurança, elaborei dentro da minha cabeça uma rota baseada no peso da carga, na zona onde tinha a primeira descarga marcada e dei início a mais uma viagem. Desta vez o destino era na Alemanha...

Com poucas horas a rolar através da planície alentejana na N4 alcançei a fronteira. Realmente o nosso país, apesar de ter tanto mar, tem pouca terra. É o nosso pequeno mas maravilhoso Jardim à Beira Mar Plantado.
Sempre que atravesso a Fronteira Nacional para sair, sou assaltado por diferentes sensações, diferentes daquelas que sinto à chegada. Sinto que é ali que realmente começa a minha viagem internacional. Ali é onde me despeço do nosso país. Dali para a frente as pessoas já não falam a minha língua e dali para diante estarei sempre cada vez mais longe de casa. A Saudade aperta-me o peito... respiro fundo. Sei que estarei de volta, mas primeiro tenho que ir. A partir dali só posso contar comigo...
Tento não pensar muito e olho para a paisagem que já conheço bem... só passado algum tempo, concentrado na condução, entro para dentro da música e envolvido por pensamentos variados, atinjo a velocidade cruzeiro seguindo para norte...


Na realidade nunca seguia sozinho... as minhas velhas companheiras seguiam viagem comigo:
A SAUDADE. Que constantemente me empurra para perto de quem Amo e me faz recordar o passado; A AUDÁCIA. Que me dá a coragem para, de forma assertiva, transpor os obstáculos que encontro diariamente; A SEGURANÇA. Que me permite manter a minha profissão e ter sempre bons regressos a Casa; A FELICIDADE. Que só com a Arte de fazer de cada dia um bom dia marca presença. Das quatro há uma que não me larga.... desde o momento em que fecho a porta de casa e sigo para uma nova viagem: É a SAUDADE! Mas dentro de uma semana e meia estarei de novo a entrar pela mesma porta de que sai quando iniciei esta viagem, e nessa altura voltarei a abraçar a minha Família, sentido a emoção do reencontro deixando a Saudade do lado de fora!  

Só com estas minhas velhas amigas e companheiras conseguia manter a minha vida a rolar, amigas que ainda hoje me acompanham e me iram acompanhar através do futuro... com elas brinco, com elas falo sobre tudo... nem sempre estão de acordo comigo nem entre elas, facilitando o exercício do contraditório, abrindo assim caminho para melhores e mais assertivas soluções para os vários problemas que diariamente surgem. Com os vários diálogos que fui desenvolvendo com elas durante as largas horas de solidão passadas ao volante, aprendi a conhecer melhor o meu Eu interior. Acredito que só conseguimos lidar bem com a solidão quando aprendemos a conviver connosco próprios de uma forma saudável, podendo ser extremamente positivo ter esporádicos momentos dedicados a este exercício. É uma das vantagens do serviço internacional, temos muito tempo para falar connosco...


E assim, entregue aos meus pensamentos e já em terras espanholas, rolava lentamente pela A66 a trepar interminável subida da Serra de Bejar direcção a Salamanca...

(continua...)   




Comentários

  1. Belo texto:) eu e os meninos estamos sempre à tua espera:) agora noutro sítio do globo;) beijinhos grandes nossos

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  2. Respostas
    1. Quem anda nesta vida entende melhor as minhas palavras.
      Bons Kms.

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